segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Humildade e respeito pelos outros que estão na mesma luta são essenciais."

Hoje, no espaço de entrevistas, converso com Alfer Medeiros, grande amigo e escritor, cujo primeiro livro já resenhei por aqui.
Como o cara já é da família, vamos logo ao que interessa, não?


Alec Silva: Como, quando e por quê você se descobriu escritor?

 Alfer Medeiros: Desde o primeiro livro que li, tive vontade de escrever. É como ouvir sua banda preferida e querer tocar um instrumento musical por causa dessa influência. Como desde cedo eu tinha metas em relação à vida escolar e profissional, esse sonho de escrever foi sendo postergado até o momento no qual percebi que poderia diminuir o ritmo de escalada na carreira e me dedicar a outros projetos pessoais.
Foi então que, sendo pai de família, com uma filha pequena, realizei dois sonhos da juventude: tocar em uma banda e escrever um livro.


Alec Silva: Tocar numa banda? Que tipo de instrumento você toca?

Alfer Medeiros: Eu toco contrabaixo em uma banda de horror punk chamada Horror Office.


 Alec Silva: Por que iniciar a carreira literário com o tema "licantropia", visto que é algo totalmente explorado pela literatura, pelo cinema e afins?
Alfer Medeiros: Sempre gostei de lobisomens, desde a infância. Nos anos 80, esse tipo de filme era bem popular na TV (Bala de Prata e Um Lobisomem Americano em Londres se revezavam constantemente na grade de programação do SBT). Nessa mesma época, as revistas de quadrinhos de horror também tinham um bom público, e isso me ajudou a consolidar a paixão por esse tipo de criatura.


Alfer Medeiros: Porém, no decorrer dos anos, o lobisomem acabou sendo mais ridicularizado do que enaltecido, principalmente por culpa de péssimas produções cinematográficas sobre o tema. Essa "injustiça" me motivou a escrever material próprio sobre os licantropos.
Não pretendo revolucionar o universo dessas criaturas fantásticas, minha proposta é mais uma homenagem particular aos lobisomens.


O Lendário Livro Sem Capa.
Alec Silva: Ao ler o Fúria Lupina - Brasil, deparamo-nos com coisas interessantes, como referências a bandas de rock, livros e filmes, além do folclore brasileiro. Como foi fazer um mash-up de tantas coisas num livro sobre lobisomens?

Alfer Medeiros: Como introduzi os lobisomens em cenários e contextos reais, essas referências foram surgindo naturalmente, conforme o ambiente fosse oferecendo o gancho adequado. Foi um processo de criação muito divertido, pois essas referências não foram encaradas como uma obrigação, e assim não soam forçadas ou fora de contexto.
Os seres do folclore brasileiro são um caso à parte. Eles surgem de maneira bem discreta na trama, porém sempre com participações marcantes. Achei impossível falar de seres fantásticos em solo brasileiro sem encaixar algumas lendas locais na história.


Alec Silva: A capa desta obra gerou alguns comentários a respeito da semelhança com o livro de RPG Lobisomem - Apocalipse, assim como a trama, embora fuja do lugar-comum. Como você encarou tais comentários?

Alfer Medeiros: De início, recebi tais "acusações" com surpresa, pois não curto RPG e nunca achei que simples marcas de garra gerariam tanta polêmica. Muitos criticaram o livro, chamando-o de subproduto de Lobisomem - Apocalipse, sem ter lido.
Com o tempo, conforme adeptos do RPG foram adquirindo o Fúria Lupina - Brasil, passei a receber feedbacks mais conscientes. Todos concordam que existtem similaridades entre as obras, não por conta de plágio ou cópia, mas por ambas se basearem no mesmo mito universal, que existe séculos.
A Fúria de Fenrir está aqui.
Eu percebi muito radicalismo por parte dos neófitos do RPG. Dos que têm mais vivência no assunto, obtive retornos excelentes.


 Alec Silva: Fúria Lupina - Brasil terá sequência, isso é óbvio, mas conte alguma coisa acerca da(s) sequencia(s) que ainda não foi revelado a ninguém.
Alfer Medeiros: Cada livro possui início, meio e fim, e por isso eu não chamaria necessariamente de uma série, no sentido de todos os livros juntos formarem uma única e longa história. Cada um é uma etapa, e nos posteriores são reaproveitados os conceitos universais lançados anteriormente e alguns dos personagens criados.
No Fúria Lupina - Brasil, tivemos uma trama sobre autoconhecimento e relação com o ambiente. No próximo livro (Fúria Lupina - América Central), tudo girará em torno de territorialismo e submundo do crime. O terceiro livro terá uma dura jornada de aprendizado, cuja finalidade é preparar um dos personagens para uma difícil missão, de muita importância para todos os licantropos.
Além dessa trinca citada, estão planejados alguns spinoffs, entre eles um sobre a organização Green Death, formada por ecoterroristas lupinos. Este projeto em particular será trabalhado após o lançamento do segundo livro.


Alec Silva: Você começou escrevendo um livro de horror, participou de algumas antologias, e agora entra na fantasia mais leve, como é o caso de Livraria Limítrofe, que sairá pela Editora Estronho. Como foi para você essa transição?

Alfer Medeiros: Como comecei tarde nessa aventura de escrever (aos 34 anos de idade), cheguei com uma gama muito grande de ideias distintas para projetos literários.
Optei por iniciar com um projeto de horror, por ser o gênero que mais aprecio na literatura fantástica. Porém, havia mais. Assim, após o lançamento do Fúria Lupina - Brasil, houve um lapso criativo que deu origem à Livraria Limítrofe, um projeto mais leve e mais recheado de referências, desta vez unicamente literárias.

Alec Silva: Como se fosse um mash-up de tudo o que você leu?

Alfer Medeiros: Sim. A Livraria Limítrofe é um estabelecimento mágico que materializa o que o cliente aprecia na literatura. A partir daí, um desfile de referências e de óticas sobre a importância da literatura na vida das pessoas.
desde a pessoa que não aprecia ler (que enxerga a Livraria como uma lojinha chata) até adeptos da literatura que criam mundos completos dentro dessas dependências.

Alec Silva: Para os próximos anos, além da série Fúria Lupina, quais os seus projetos literários?

Alfer Medeiros: Além de Fúria Lupina e Livraria Limítrofe (dois projetos que terão continuações), também o Dio Scott e os Vinis Viajantes, uma mistura de rock'n'roll com literatura fantástica.
Eu e o livro, o livro e eu.
Trata-se de um personagem que possui uma coleção de discos de vinil, e a cada capítulo apresenta uma obra representativa do rock mundial e cria uma história baseada naquele disco. Assim, ele mesmo encarna personagens distintos em histórias malucas, baseadas nas letras das músicas e no próprio clima que o disco transmite.


Alec Silva: Para terminar, que dicas você a quem busca ser um escritor?

Alfer Medeiros: Basicamente o que a maioria sugere: ler muito, aprimorar sempre a escrita, saber receber positivamente as críticas e, principalmente, NUNCA se achar o novo Tolkien, King ou Rowling. Humildade e respeito pelos outros que estão na mesma luta são essenciais.

3 comentários:

Alec Silva disse...

Em breve, vamos saber mais sobre Eric Musashi e sua obra!

Abraços.

Marcelo Augusto Claro disse...

Alfer Medeiros sempre foi um exemplo de humildade. Um grande amigo, sempre pronto com palavras sábias quando preciso.
Sucesso, Alfer!

Alec Silva disse...

Ele é um cara bem legal e humilde mesmo, Marcelo!

^^