sábado, 14 de maio de 2011

- Conto: Perda | Por: Pamella Santos





   Furiosa. Eu estava muito furiosa.

   Há muito tempo não sentia sentimento parecido. Uma vez eu estive dessa maneira por culpa da minha amiga Elisa que conseguiu fazer com que eu brigasse com outra amiga minha. Demorou para eu voltar a falar com Bianca, mas eu consegui com muito esforço. Quando a essa pessoa... Eu não queria mexer nem uma palha para ter alguma relação outra vez.

   Meus passos pelos corredores eram apressados. Eu virei à esquerda para a rampa em busca do meu alvo. Da minha vítima. Porque ele iria se arrepender pelo resto da vida por ter feito aquilo. Por ter me magoado. Pior, por ter me deixado furiosa. E eu estava possessa.

— Oi Lívia. – Valéria me cumprimentou quando estava subindo a rampa. Eu nem me dignei a dar uma resposta. Continuava a percorrer o caminho como se tudo dependesse daquilo.

   Ao chegar finalmente no primeiro andar, virei à esquerda para a direção da última sala. Era lá que ele estava. Mas eu nem tive o trabalho de procurá-lo. Ele saia da sala com aquele cara zombeira de sempre e o sorriso debochado. Ele sempre tinha esse sorriso. Sempre. Mas eu iria tira-lo do seu rosto. Eu com certeza iria.

— Seu verme. – Eu fui rápida, o que me surpreendeu.

   Consegui soca-lo com toda a força que eu tinha em meus braços. Com o impacto, seu corpo foi de encontro à parede batendo a cabeça com força. Minha mão doía, mas não mais do que ele me causou. E eu não me importei com seu estado. Apenas queria libertar aquela fúria incontrolável de mim.

— O que você pensa que está fazendo!? – Ele exclamou. Seu semblante não era de encrenqueiro, mas sim, de uma pessoa tomada pela fúria assim como eu.
— O que eu estou fazendo? O que você fez! Você acha mesmo que sou louca? Que eu não sei o que você disse?
— O que eu disse!? Acorda! Eu não sei o que está falando! E que direito tem de vir e me socar, louca?
— Eu vou te mostrar à louca... – Disse entre dentes me aproximando para desferir outro golpe corajoso. Não tive a oportunidade. Ele conseguiu segurar as minhas mãos incontroláveis que apenas pedia por mais rodada. Mas uma chance de fazer justiça. — Me solta! – Exclamei altamente.

   As pessoas no corredor pareciam mais que divertidas em ver a cena toda. Não pareciam ligar se seus professores estavam nas salas de aula, ou se a senhora Lúcia iria pegar todos eles para levar à direção por estarem fora das suas salas. Eles queriam ver o show? Que vissem! Eu não me importava. E ele também não. No fundo da minha consciência eu imaginava que ele devia adorar aquela exibição. Para aumentar seu ego? Provavelmente.

— Não até me dizer o que está acontecendo. E é bom ser um motivo muito bom, Lív. – Ele murmurou friamente. Ele nunca ficava com raiva. Mas quando ficava, era algo para você ter medo. Seus olhos ambarinos cortantes esperaram uma resposta minha.
— Você fez aquilo. Você fez. – Eu disse desesperada. — Fez! Eu sabia que iria fazer. Vocês sempre fazem! – Como se do nada, as lágrimas começaram a escorrer por entre meu rosto. Foi impossível controla-las. — Eu tentei acreditar que poderia ser diferente. Mas as pessoas diziam. Minha mente gritava e eu simplesmente fiz questão de ignorar. – Chorei mais um pouco. De raiva e de algo que vinha a tona no meu interior. Algo que eu tentei incontrolavelmente ignorar.
— O que eu fiz! – Ele exclamou exaltado. Sua raiva tinha passado um pouco e ele parecia à cima de tudo curioso para saber o que tinha feito.
— Você... Você fez. – Eu funguei altamente. – Você matou ele. Você matou. – Comecei a chorar incontrolavelmente mais uma vez. Ele, assustado, soltou as minhas mãos.

   As pessoas a nossa volta começaram a rir. Elas riam como se aquilo fosse a melhor coisa que tinha acontecido naquele dia que mal tinha começado. Parecia engraçado? Sim. Com certeza para eles pareciam. Mas eu não ligava para o que eles achavam. Apenas a mim. Eu importava. Pela primeira vez, eu queria pensar em mim. E em como eu ficaria depois desse dia.

   Senti alguém alcançar o meu braço e me puxava para longe dele. E esses braços que me puxavam para longe me guiaram para baixo. Para longe daquelas salas, daquele corredor... Dele. E eu fiquei agradecida. Estava sufocada.

— O que houve Lív!? – A pessoa que me puxava perguntou assim que descemos a rampa espessa.

   Eu não disse nada. Não conseguia desferir mais nenhuma palavra depois daquilo. Depois de meus sentimentos raivosos terem ido ao limite. Eles nunca iam. Eu nunca ia até o limite. Hoje realmente ira ficar marcado a minha vida inteira.

— Lív! Por favor, diga algo! – Ela suplicou desesperada.

   Dizer? O que eu poderia falar?

— Lívia! Não faça isso comigo! Eu preciso saber o que está acontecendo!
— Ele morreu Valéria. – Eu sussurrei baixo. – Ele morreu.

   Ela ficou estática com as minhas palavras. Seu rosto era um misto de completa surpresa e pesar. Era o que ele tinha sentido. Mas em Valéria parecia certo.

— Como você sabe disso? Você nunca pode adivinhar algo como isso. Não pode ter tanta certeza...
— Mas eu tenho! – Exclamei quase a beira do desespero. — Você não percebe isso? Como isso vai causa na minha vida? Eu nunca vou ser a mesma. Nunca. Por causa dele, eu não vou ser quem eu pretendia ser. Que eu planejava. Porque ele matou o que eu mais amava em mim! – Coloquei as mãos em meu rosto para esconder mais uma rojada de lágrimas.

   Depois de um tempo, Valéria me envolveu em seus braços para tentar me acalmar. Confortar-me. Tentar pelo menos... Ela sabia que ele havia morrido.

— Eu sinto muito...

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2 comentários:

Isaac Guedes disse...

Interessante e bastante comovente, parabéns, gostei.

Alec Silva disse...

Sensacional!
Li e amei!