segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Sábio e o Camponês (Alec Silva) e O Lavrador e o Rei (Eric Musashi)

Bom dia!
Hoje vou postar não um conto, mas dois. Um é meu, este primeiro aqui... O Outro é de meu recente amigo literário Eric MUsashi, que em breve irá publicar um livro muito bom (ainda só li uns trechinhos)... É um conto muito extenso, quase uma noveleta, mas vamos lá!
Leiam e vejam que belo texto!


O Sábio e o Camponês
Um sábio, sendo atingido pelo orgulho escessivo, foi até uma pequena vila e convidou um camponês para um passeio de barco. Enquanto este remava, o sábio perguntou:


– Já parou para ouvir, durante uma semana, as vozes dos pássaros?

– Não, senhor – respondeu o camponês, com toda a humildade que dispunha.

– Saiba que você perdeu a melhor coisa de sua vida!

Mais adiante, o sábio fez outra pergunta:

– Já parou para acompanhar toda a caminahda do Sol pelo firmamento?

– Não, senhor – respondeu outra vez o pobre camponês.

– Saiba que você perdeu a melhor coisa de sua vida!

Passaram perto de um campo florido. O sábio, todo cheio de si, aproveitou a oportunidade e indagou:

– Já parou para ver o desabrochar das flores ou a transformação de uma lagarta em borboleta?
– Não, senhor.

De repente a água do lago começou a entrar pelo casco do barco. O camponês rapidamente pulou na água, mas o sábio nada fez. Espantado, o vilão perguntou:

– Por que não pula no lago, senhor?

– Eu não sei nadar – respondeu o sábio, apavorado.

– Saiba que o senhor vai perder a coisa mais preciosa do mundo: a sua vida.



O Lavrador e o Rei
I

            Assim como a bruma que parecia uma capa de algodão sobre a terra se desfez, os primeiros raios de sol se espalharam pelos campos, que resplandeciam verdejantes pelo orvalho. O canto dos pássaros existia, estava ali como devia ser, e era agradável aos ouvidos do jovem Punho-de-Maça. Contudo, por mais que lhe fosse natural se sentir em casa, ele era diferente dos outros rapazes, daquela geração nascida em fazendas, e que não compreendia os mais velhos. Em seus sonhos, aves desconhecidas o despertavam pela manhã, e o céu azul quase que desaparecia, sendo apenas pequenos pedaços visíveis por entre as copas das árvores. Só havia a floresta, e a vida simples da qual os mais velhos falavam com tanta nostalgia.
            Punho-de-Maça não queria, mas abriu os olhos. A janela, como de costume, fora aberta pelo seu irmão mais novo, que acordara primeiro. Aquela casa de madeira, a paisagem de verde além do verde ao redor, com a sombra amedrontadora da Montanha ao longe, para o austro, tudo aquilo era a realidade perene do rapaz, o que seu par de olhos dourados sempre viram. Mas ele não era capaz de se identificar... E sonhava com florestas que jamais foram suas.
            Era mais um dia como todos os outros. Mas não para ele. Por isso, ao entrar no quarto e ver o irmão ainda nu, e não vestido com a saia e as botas de couro para trabalhar na colheita, Dança-na-Noite estranhou. Diferente dos outros vivictos, Punho-de-Maça tinha braços fortes e ombros largos, uma compleição típica de anilos. Dos malditos anilos. Dizia-se que ele podia ser filho de algum homem daquela raça violenta, ainda que tivesse cabelos, olhos e traços de vivicta, de beleza delicada como a de um beija-flor. Talvez fosse mais uma ironia dos titãs naqueles tempos estranhos, longe das florestas – todavia, quem não viveu essa realidade só encarava como uma curiosidade a mais.
            Punho-de-Maça, de pé no canto derramando água sobre o corpo, era uma figura estranha àquele ambiente, com seus músculos saltando às vistas.
            – Para que esse banho matinal, se logo estará todo sujo e suado? – perguntou Dança-na-Noite em tom jocoso.
            – Sempre acabamos nos sujando e suando, mas prosseguimos nos banhando dia a dia – replicou Punho-de-Maça. Ele costumava ser pouco tolerante em suas respostas, mas havia algo mais ali. Um certo nervosismo, como se escondesse algo.
            Sem saber como prosseguir, Dança-na-Noite mudou de assunto:
            – Venha, irmão; cozinhei bananas para nós.
            Então, findo o seu banho, Punho-de-Maça pareceu voltar ao normal, e seu rosto desanuviou. Ele sorriu, relembrando a beleza de sua mãe:
            – Você prepara um ótimo desjejum, maninho.
            – Ora, e preciso que me diga? – gabou-se o caçula. – Já cativei mais de uma garota com meus dotes culinários.
            Punho-de-Maça se secou com o cobertor, precariamente, e jogou a roupa escura de couro sobre o corpo, deixando um cinto sobre o peito nu, e colocando um par de braceletes. Ele ajeitou as madeixas mal-cuidadas com as mãos, e prendeu a faca de obsidiana na cintura. Só os anilos sabiam trabalhar metais, e eles jamais dividiriam isso com os vivictas. Ou assim cria Punho-de-Maça.
            Então, tomado por um súbito sentimento de afeto e cuidado, foi até o irmão e afagou seus cabelos:
            – Faça o que o agrada, irmãozinho, e seja feliz.
            – Do que você fala? – não entendia Dança-na-Noite.
            – Devemos ir atrás de nossa felicidade, é só isso.
            Ele completou em pensamento: “E a minha, como a de nossa mãe e dos mais velhos, não tem nada a ver com esta terra. Eles nos impuseram a escravidão, porém ainda somos vivictas livres da floresta, e o que nos agrada é a serenidade do bosque, o doce sabor do hidromel e o dedilhar hipnotizante de uma lira. Fomos traídos por aquele que deveria nos salvar, mas farei o que puder para mudar isso. Por você e por nossa mãe, irmãozinho.”
            Ao fim do pensamento, Punho-de-Maça beijou a cabeça do irmão, que se afastou subitamente:
            – Acho que está há muito tempo sem uma garota!
            – Humf – fez Punho-de-Maça.
“Você já pensa e age como os anilos, assim como eles se apaixonaram por nossa lira. Como se pudéssemos aceitar pacificamente essa dominação, e entregar a eles nossos tesouros. Nossos povos se assemelham no culto aos titãs, e eles se aproveitaram disso para se aproximarem. É o que diz minha mãe. Contudo, as semelhanças param por aí, e somos água e óleo!”
– Você está tão quieto hoje, irmão – comentou Dança-na-Noite.
– Você é que fala demais, baixinho – sorriu Punho-de-Maça. “Os anilos até os fizeram se esquecer da magia do silêncio, aqueles rudes barulhentos!” – Vamos comer, e quem sabe assim você se cala.

Punho-de-Maça saiu pelo caminho barrento entre as plantações, e não olhou para trás a fim de não se deparar com o semblante triste do irmão por sua partida. A Montanha dos Titãs não estava tão longe, e ele poderia chegar em um ou dois dias, dependendo de sua disposição. Não obstante, havia algo que tinha que fazer antes de deixar o povoado.
À beira da estrada, rindo e falando alto com suas vozes amplas, três anilos bronzeados gastavam seu tempo impedindo que duas moças vivictas seguissem seu caminho. Elas usavam blusas que deixavam as barrigas à mostra, e saias curtas de couro, e carregavam bacias cheias de roupas. Quando Punho-de-Maça passava ao seu lado, já não pareciam incomodadas com os brutamontes de cabelos negro-azulados e sotaque extravagante.
“Pensam que eles representam uma melhora de vida, quando na verdade só as querem, no máximo, como escravas particulares”, lamentou Punho-de-Maça.
Ele passaria os ignorando, enojado da situação, porém alguém falou com ele:
– Ei, tuata, aonde pensa que vai? – indagou o anilo.
– Eu tenho uma audiência com o Rei na Montanha – explicou Punho-de-Maça, controlando-se, pois seu ódio dos anilos se ampliou tanto que ele teve medo de atacá-los – o que não era nada sensato.
Ele então mostrou a pedra com o símbolo que significava salvo-conduto. Os anilos deviam fiscalizar todo e qualquer movimento de vivictas, além de vigiarem as fronteiras.
Após apanhar a pedra para verificar, o gigante bronzeado pareceu que não a devolveria.
– Quer dizer que sem isso você não passa? – chacoteou ele.
Punho-de-Maça olhou para as garotas, que se entristeceram por ele. Ele as conhecia de vista, pois o povoado não era tão grande.
– Vá, tuata – disse o anilo, e jogou a pedra no peito de Punho-de-Maça. Este a apanhou no chão, e suspirou fundo, seguindo seu caminho.
– Anilos dos infernos! – resmungou, já distante.
E, embora boa parte das florestas tivessem sido derrubadas para o plantio, e a Floresta Alegre fosse só um sonho distante apartado dos vivictas, ainda havia pequenas áreas virgens, mantidas pelos anilos por não verem uso nelas. Não havia vivicta que pudesse morar nesses lugares, e a alternativa para manter viva sua cultura era criativa: suas casas eram cheias de trepadeiras nas paredes, uma mescla de aldeia e selva. Contudo, Punho-de-Maça não se desviara do caminho à toa; após andar por pouco tempo entre as árvores, logo ele pôde divisar uma cabana.
Ela era elevada do solo, e Punho-de-Maça subiu sem cerimônia os degraus. Empurrou o tecido que a selava, e se deparou com um ambiente simplório, apenas com os utensílios mais básicos para a sobrevivência, e uma mulher nua de joelhos, de costas para ele. A cabeleira alva caía em suas costas, cobrindo-as, e na parte visível do corpo – braços e nádegas – havia desenhos em negro.
– Eu sei por que você veio – disse ela, com sua voz forte e serena como uma cachoeira, repleta de sensualidade dominadora.
A única luz vinha da entrada da tenda, e, apesar de conhecê-la tão bem, Punho-de-Maça não cansava de se surpreender. Ao invés de se achar dormindo, ou fazendo qualquer outra coisa, parecia ter certeza de que ele viria exatamente naquele momento, e o esperava.
E, num movimento seguro, deu meia-volta, encarando-o. O abdômen tinha pinturas em formas geométricas retas, enquanto que nos seios os riscos espessos faziam espirais, mas ainda com linhas retas, cheias de curvas bruscas. Ela se voltou sem se levantar, e os joelhos se apoiavam no chão. Estava completamente nua, uma vivicta legítima, de pele lisa, a não ser pela tinta.
– Você conseguiu ser aceito para conferenciar com o Rei – disse ela, cheia de certeza.
– Sim, consegui – admitiu Punho-de-Maça, abaixando a cabeça por não poder encará-la. E então, de súbito, levantou os olhos e se fixou nos da mulher, que eram como os seus: – Mas não pense que minha conversa com ele será boa, sobre elogios ou súplicas. Eu só tenho um assunto para tratar com esse traidor – e deu tapinhas no cabo da faca.
Suas palavras pareceram não causar nenhuma emoção na mulher – ou ao menos foi o que se percebeu por suas feições, inalteradas. Ela se pôs de pé, e caminhou vagarosamente até ele, passos tão suaves que suas madeixas onduladas praticamente não se moviam. Ela por fim parou, seu rosto a um palmo do rosto de Punho-de-Maça, e seus seios quase roçando o peitoral proeminente do vivicto. Ele sentiu seu cheiro, e ainda era o mesmo de tanto tempo atrás.
– O tempo parece impotente com você – disse ele.
– A tinta até tenta eternizar as coisas, mas ela só atrasa o seu envelhecimento – respondeu ela. – O mesmo que ela faz nas paredes, ou nos troncos das árvores, ela também provoca em mim. Esconde a passagem dos anos, prolonga os acontecimentos, mas é fato que envelheci, ainda que o tempo tenha sido gentil comigo. Mais gentil ele foi com você, que esculpiu como um titã, capaz de amedrontar o mais robusto dos anilos.
– Suas palavras ainda são doces, bem como permanece bela como uma deidade. Chefes de clãs anilos, ou mesmo seus reis, dariam uma fortuna para a terem.
Foi a vez dela abaixar a cabeça, parecendo tocada pelas palavras desta vez. Contudo, seu fraquejar não durou muito, e ela logo o encarava novamente:
– Sua jornada será transformadora, é o que posso assegurar – disse, com um amor maternal em seus olhos. – Você nunca mais será o mesmo.
– De todas as videntes dos povoados vivictas, você é a mais admirada, tanto que já aconselhou um rei anilo – elogiou ele. – Mesmo hoje, com nenhuma aldeia livre do jugo dos anilos, seu nome ainda é pronunciado em todo canto deste país. Guardarei suas palavras, pois sei que se concretizarão.
Ela sorriu, e acariciou seu rosto.
– Mentirei se negar que senti sua falta – murmurou ele.
– Vá em paz, meu garoto, e não vacile em realizar seu desígnio.
Punho-de-Maça assentiu com um movimento de cabeça, e deu meia-volta, não querendo prolongar aquela despedida. Ele saiu determinado da tenda de volta para o bosque, e tratou de verificar se sua segunda faca estava oculta na bota. Com certeza não o deixariam entrar armado para ter com o Rei.
– Sim, eu nunca mais serei o mesmo – disse, assim que saiu para o campo aberto e toda a luminescência do dia. – Nem eu, nem todos os outros vivictas. Tão logo eu faça justiça e tire a vida desse traidor, iniciar-se-á uma disputa pelo poder do alto da Montanha, os anilos se dividirão, e será a brecha para que o nosso povo alcance a liberdade. Acompanhem-me, titãs, pois o que faço é justo!

II

            A Montanha era uma visão horrenda para um vivicto como Punho-de-Maça. Não só pelo impacto que os anilos causavam em sua vida, e sendo ela o lar de seu Rei já há mais de dois séculos, mas por ser contra quase tudo o que agradava o povo delicado das florestas. Além dela, e das praias brancas, havia o mar, amedrontador como um deus maligno, um limite natural. Seria possível ir até seus confins? Punho-de-Maça cria que não.
            E, após a estrada cercada de campos, havia o terreno quase sem vegetação da Montanha, terra nua e sem cor. No sopé, acumulavam-se casas de madeira elevadas do solo, e, em pedaços explorados e tocados pela mão do homem, bairros-satélite abrigavam os clãs que desejavam manter uma proximidade com o Rei. Elas eram erigidas em pedra, embora houvesse varandas e cômodos de madeira que se projetavam para fora da construção original. As ruas eram simples caminhos de pedras brancas, e por vezes vermelhas, que se cruzavam uns com os outros subindo pela Montanha. Todos eles, de uma forma ou de outra, levavam até o topo, onde se achava o castelo do Rei.
            Punho-de-Maça olhava para tudo isso, mais atemorizado que admirado, enquanto um anilo com uma lança conferia o seu salvo-conduto. O brutamontes tinha uma cicatriz na maçã esquerda, e um cinto de couro no peito, largo para protegê-lo num eventual combate. Outro, grande, mas não tanto quanto ele, se aproximou, perguntando para o vivicto:
            – É alguma investigação?
            – Pedi para ter com o Rei, e, sendo filho de quem sou, ele me concedeu essa honra – replicou Punho-de-Maça, evitando olhar nos olhos do anilo, em respeito.
            – Fala como se não fosse um tuata – caçoou o anilo.
            – Não é uma falsificação – disse o outro, com a voz grave. – Conduza-o até o castelo.
            – Sim, tio – aquiesceu o anilo que se divertia com Punho-de-Maça. – Ande, tuata.
            Eles se colocaram em marcha, e subiram através de um caminho de pedras rubras. Ele serpenteava pela Montanha, e ninguém podia supor que aquilo ali se tornasse uma grande cidade algum dia. “São só um bando de tolos querendo bajular um homem presunçoso que faz morada no lugar mais alto que já alcançou”, pensou Punho-de-Maça, sem saber que o Rei expandira as fronteiras e galopara com seu pégaso até montanhas muito mais elevadas, ao norte.
            A subida era uma condição com a qual Punho-de-Maça não estava acostumado, e por isso ele ofegava. Seu orgulho, porém, o forçava a não demonstrar cansaço. “Você defende tanto os ideais de nosso povo, mas é o mais anilo entre nós”, dissera-lhe certa vez um garoto, o que provocou uma briga, e Punho-de-Maça deslocou o seu maxilar, ganhando então seu nome de adulto.
            – Perdendo as forças, tuata? – indagou o anilo. – Bem que dizem que são uma raça sem valor, e só travam batalhas com a terra, que não pode se defender. E isso porque são obrigados por nós.
            Só o jeito do anilo se expressar o enojava, e Punho-de-Maça preferiu não responder. Se o fizesse, o resultado poderia ser catastrófico.
            O resto do caminho, percorrido em quase um quinto do dia, como os vivictas gostavam de dividir o tempo, foi feito em silêncio. Mesmo quando eles pararam num bairro, e o anilo conversou com colegas, pedindo água, Punho-de-Maça seguiu calado. Não lhe foi oferecida água, e ele já esperava por isso. Seus olhos, na verdade, não deixavam de se fixar no imponente castelo no cume.
            Assim que chegaram lá em cima, Punho-de-Maça pela primeira vez se sentiu tocado pela beleza de algo naquele dia: havia um par de lagos artificiais, e um espaço gramado com tapetes de flores e árvores. Como uma clareira na floresta, as Clareiras das Conferências de que os mais velhos falavam com nostalgia. E, além desse trecho revigorante da jornada, estavam os degraus e então a porta-dupla reforçada do castelo.
            Após as batidas do anilo, elas se abriram, revelando uma mulher de traços fortes típicos de anilas, com um vestido curto de couro. Devia ser uma daquelas meninas enviadas pelos pais para servirem no castelo, em troca de ajuda do Rei quando necessário.
            – Ele tem um salvo-conduto, e o Rei o espera – disse o anilo, parecendo amuado.
            – Fui avisada sobre isso – disse ela.
            Houve um momento de hesitação, e o anilo empurrou o vivicto:
            – O que está esperando, bastardo? Não se esqueça de que está num castelo e comporte-se – aconselhou, antes de partir.
            Punho-de-Maça tropeçou, mas se apoiou na garota, que se afastou rapidamente dele. Contudo, a repulsa da menina não o incomodava – se os anilos tomavam vivictas em seus braços, eles inventavam lendas e maldições para suas filhas a fim de jamais se relacionarem com os rapazes da estirpe das florestas. E, olhando para o rude brutamontes que o conduzira, só pensou: “A sua hora vai chegar. De todos vocês!”

III

            A ante-sala era separada do salão principal do castelo por divisórias de madeira, que tinham espessos troncos de árvore que iam do chão ao teto ao fim de cada uma delas. Antes de Turaquê, o castelo era um prédio simples de paredes de pedra, com um único aposento no andar inferior, e quartos acima, pelos cantos. Contudo, não foi por simples privacidade que ele mandou erigir as divisórias e as colunas de árvores; ali, dispondo dentro do castelo um elemento sagrado dos vivictas, ele não só amalgamava as culturas, como impunha sua dominação ao povo pueril das florestas.
            Uma das divisórias, que tinha fim na parede sul, estava deslocada, e por lá Punho-de-Maça entrou, conduzido pela anila. Ele então se deparou com um amplo salão de piso vermelho-bronze. No meio do recinto, três degraus separavam uma metade da outra, sendo o fundo mais alto que a entrada, e lá se achava o trono do Rei, em mármore negro com detalhes brancos e forros carmesins. Cortinas purpúreas, de saques nas aldeias vivictas que sabiam como trabalhar aquela cor, pendiam dos corrimões do andar de cima, criando uma aura surreal e convidativa ao salão do Rei. Quase totalmente ocultas pelas cortinas, as escadas subiam em espiral pelos dois lados do trono, feitas de madeira.
            – Espere ser chamado – disse a anila, com dureza na voz.
            Punho-de-Maça assentiu, e se concentrou no que via, em seu silêncio. Ao invés de se achar soberbo em seu assento, com um cetro ou uma arma ameaçadora, o Rei estava sentado nos degraus, como uma pessoa simples. Ele calçava sandálias de couro enegrecido, e vestia uma saia e um colete do mesmo material, tendo seus cabelos alvos soltos, caindo pela frente e por trás de seus ombros. Muito era dito sobre seu físico avantajado, que herdara de seu pai anilo, mas não era bem o que Punho-de-Maça via. Diante dele, parecia haver um vivicto como qualquer outro. “Eu sim sou um exemplar raro”, pensou, com desdém.
            O Rei, de braceletes de prata e faca comprida na cintura, em bainha com chamativas safiras, segurava as mãos de uma rapariga. Ela tinha um manto como roupa, e suas pernas e nádegas eram expostas pelo modo como se sentava. Uma anila legítima, não bronzeada como os homens de sua estirpe, mas sim branca, crescida apartada do sol, e de constituição robusta e cabelos negro-azulados. Estava grávida, talvez próxima de parir, e parecia consternada.
            – Eu tenho medo, muito medo! – exclamou, com a voz chorosa. – Os titãs me visitaram esta noite em sonhos violentos, e sangue era tudo o que eu via.
            – Aquiete-se, criança – sorriu o Rei, com um carinho estranho a um jatitano, ao menos aos olhos de Punho-de-Maça. – Ele me disse, e eu acredito, que tudo correrá bem.
            De súbito, a jovem pareceu se animar:
            – Ele disse isso mesmo?
            – E eu mentiria para você?
            Seu rosto se desanuviou, e ele abriu um largo sorriso. Então, de súbito, pareceu se entristecer novamente:
            – O momento chega, e ele não está aqui.
            Antes que o Rei pudesse responder, a garota que conduzira Punho-de-Maça retornou, e chamou a anila grávida:
            – Maepânia, está tudo pronto.
            Só então ela se deu conta da presença de outro vivicto no salão; não alguém que vivia entre os jatitanos, mas um rústico qualquer dos campos. Um pertencente à casta escravizada ao longo de dois séculos, e submetida por completo nas campanhas vitoriosas de Turaquê. Ela nem tentou esconder que pretendia passar o mais longe possível dele, e, em seus passos dificultosos, deixou o salão.
            Punho-de-Maça não se sentiu incomodado. E, atento ao que acontecia, percebeu que o Rei meneou a cabeça, fazendo algum sinal para a outra anila.
            – É curioso como fazemos filhos numa ânsia de prosseguirmos, nossa continuidade, e na verdade eles nos tiram a vida e tomam nosso lugar – disse o Rei, dirigindo-se a Punho-de-Maça, o único ali além dele. – Eles, assim como o envelhecimento, são a maior prova de que somos absolutamente passageiros, e de nada adianta nos alarmarmos por conta disso. A substituição não é somente necessária, mas também irrefreável.
            O lavrador ficou em silêncio e estático, apenas esperando pelo momento em que fosse chamado. Naquele instante, mais que em todos os outros, ele tinha consciência do que representava a sua oportunidade. Talvez não fosse necessária nenhuma medida drástica, e o Rei o escutasse. Quem sabe a metade vivicta não falasse mais alto?
            – Com alguns, a morte é a da mãe, que se sacrifica para dar à luz – prosseguiu o Rei, absorto. – Para outros, é o pai, que deve perecer para o filho o substituir.
            E, com um sutil vislumbre conferido pelo Terceiro Olho natural dos vivictas, Punho-de-Maça fez ideia de onde ele queria chegar. “Eu já conheço essa história”. Não obstante, deixaria Turaquê falar. Na verdade, ele só se perguntava como um vivicto frágil como os outros pudera se sobrepor aos anilos e empreender tamanhas conquistas militares.
            O Rei se voltou para a parede à sua direita, e se pôs de pé, olhando fixamente para um machado de guerra.
            – Turáxio, como todos os reis que sucederam Anjifum, viveu atribulado, sempre atento contra as possíveis traições nessa luta constante pelo trono. Sucessores em potencial pululam, os laços de vassalagem são tantos entre os clãs, e a qualquer momento pode haver uma emboscada, um envenenamento, uma faca na noite. – O Rei se voltou para Punho-de-Maça, que não teve medo de encará-lo. Àquela distância, apenas com a luz dos candeeiros, eles não podiam olhar nos olhos um do outro. – Turáxio soube da famosa vidente da Floresta Alegre, mais poderosa e precisa que todas as outras tuatas, e foi até ela. As condições eram claras: que ele fosse com um grupo pequeno de guarda-costas, sem ameaçar o seu povoado, e então poderia consultá-la. Ele, temeroso, aquiesceu. E, após se espantar pela maneira que ela fazia suas previsões, em êxtase total, acredito que ele deve ter gostado muito de provocar esse estado nela, anilo que ele era.
            Punho-de-Maça fechou os olhos e apertou os punhos, incomodado com a ideia do Rei anilo possuindo a mais nobre vivicta e tendo-a plenamente em suas mãos, como as mulheres se permitiam ficar no auge de seu prazer. Ali, sem qualquer receio, entregue, a vidente teria seus vislumbres, e faria suas profecias.
– Dali em diante – prosseguiu o Rei –, Turáxio jamais deixou de passar uma ou duas luas na primavera com ela, e viu seu filho mestiço crescer. Por conta das consultas, ele anteviu inimigos e desarticulou alianças para derrubá-lo, além de revoltas entre os tuatas escravos. Só não esperava que, depois de mais de uma década tendo-a como aliada, ela fosse traí-lo. E assim morreu o último rei de sangue puro anilo que ocupou este trono.
            Após um suspiro, o Rei tornou a se voltar para Punho-de-Maça:
            – Quem imaginaria que um jovem mestiço teria pulso firme para unir todos os anilos sob o seu machado, domar um pégaso e conquistar o mundo conhecido? Será que a vidente traiu realmente Turáxio, ou ela cuidou para que seu desejo se realizasse? Afinal, o seu pedido a ela foi que garantisse a manutenção de sua linhagem pelos séculos dos séculos. Não teria ela antevisto o maior império do mundo?
            Punho-de-Maça conhecia essa linha de pensamento, e era por meio dela que a vidente ainda estava viva, e era mantida em paz. Mas ele não podia concordar com ela. Os anilos haviam de cair!
            De súbito, um homem grande de músculos torneados surgiu no salão, de saia folgada de couro, botas e um cinto no peito, com faca na cintura, escudo nas costas e machado na mão esquerda. Ele passou ao lado de Punho-de-Maça, e era mais alto, apesar de ter os cabelos alvos de um vivicta, presos num rabo-de-cavalo. Parou diante do Rei, que lhe sorriu, e depois se voltou para o lavrador:
            – Mas onde estão meus modos? Venha comigo, tuata, e se sente para conversarmos, enquanto saboreamos uma boa corça e bebemos hidromel.
            Ele chamou com um gesto, e Punho-de-Maça foi a contragosto. “Carne caçada, como os anilos apreciam, e a bebida de nosso povo. Tudo o que ele faz é com um propósito, esse astuto inescrupuloso!” pensava ele, cônscio da faca em sua bota – e da presença do robusto guarda-costas a poucos passos do Rei.

IV

            Eles já estavam sentados há quase um sétimo do tempo da luz do sol, pelo relógio interno de Punho-de-Maça, e sobre o forro púrpura e amarelo da mesa baixa havia cerâmicas com caldos, hortaliças e a carne de corça, num sabor que, a contragosto, agradou o lavrador. Os copos de cobre estavam cheios de hidromel, a bebida sagrada e revigorante dos vivictas, e Punho-de-Maça cria sentir o clima da floresta na qual nunca vivera só com o aroma daquele néctar dos titãs.
            O guarda-costas, silente, os observava.
            – É curioso – disse o Rei, de repente, e se recostou na cadeira, relaxado. Não havia música ou canto dos pássaros, nem a lira vivicta ou a flauta anila, ou os rouxinóis alegres. Era só silêncio, entrecortado por suas vozes.
            – Disse algo, meu Rei? – indagou Punho-de-Maça, sentindo-se forçado a falar daquele jeito.
            – Você é Punho-de-Maça, enquanto eu sou Punho-do-Relâmpago – embora tenha sido conhecido como Anilo-Vivicto na infância – explicou o Rei. E só então Punho-de-Maça se deu conta de que conversavam no dialeto vivicta, de fala mais suave e vogais mais variadas que na língua dos anilos.
            Ele se deu conta do quanto eram enlaçados, mas preferiu não comentar.
            – Agora que comemos e bebemos, me diga, lavrador, o que o trouxe até aqui – pediu o Rei, que parecia olhá-lo nos olhos. Contudo, o azul ali era tão artificial que Punho-de-Maça não podia ter certeza da direção para qual o Rei olhava.
            – Eu vim, em nome de todos os vivictas, e da Vidente da Floresta, fazer-lhe um apelo, meu Rei – iniciou ele, controlando a respiração para não gaguejar. – Não faço ideia do que lhe representam seus traços, que agora vejo de perto pela primeira vez, ou seus cabelos alvos como a neve do cume das montanhas mais altas, mas espero de coração que se sinta tanto um vivicto como um anilo, um jatitano. Por isso venho humildemente pedir que tome ciência da degradante condição de escravatura de meu povo, de nosso povo das florestas, e nos deixe ir, voltar para casa.
            Neste momento, o guarda-costas riu sonoramente, e o Rei se permitiu dar um sorriso irônico, arqueando uma sobrancelha.
            – Quando alguém faz uma oferta, ela costuma vir acompanhada de uma compensação – disse o Rei, soturno –, um forte motivo para a aceitação.
            – Não é uma oferta, meu Rei – replicou Punho-de-Maça –, mas um pedido. De vivicto para vivicto.
            – Aí já é ofensa demais...! – foi dizendo o guarda-costas, com sua voz forte, e fez menção de ir até eles e tirar o lavrador dali a pontapés.
            – Aquiete-se aí – pediu o Rei, com um aceno. – E você, lavrador, é só mais um no rebanho, enquanto eu sou o pastor. Pode você saber o que lhe é melhor? Não, com certeza. Nem para si mesmo, quanto mais para o povo de sua aldeia, ou de sua etnia, uma mera casta no Império Jatitano. Seu pedido foi feito com educação, e por isso você seguirá bem tratado, mas não exagere em sua ousadia. Eu sou o Rei, e você não faz ideia dos planos, das decisões que preciso e já precisei tomar.
            “A soberba anila de volta”, lamentou Punho-de-Maça.
            – Mais alguma coisa? – quis saber Turaquê.
            Punho-de-Maça sentiu que não tinha outra escolha. Ele tomou consciência da posição do guarda-costas, a cerca de dez passos de distância, ainda recostado na parede. O brutamontes não parecia pronto para o exercício súbito; na verdade, tudo nele demonstrava um certo escárnio pela inocência do lavrador. E isso era tudo, a brecha de que Punho-de-Maça necessitava.
            Ele segurou com firmeza a mesinha, e não se preocupou com a bela cerâmica negra com riscos brancos e vermelhos, trabalho vivicta nas cores jatitanas. O Rei, de braços cruzados, fitava-o com seus quase irreais olhos azuis, parecendo frios e opacos como uma pintura na parede. E, conclamando toda a sua força, Punho-de-Maça levantou de súbito e atirou a mesa na direção do guarda-costas.
            No susto, o Rei se jogou para trás, quase caindo sentado no chão – e cairia, não fosse Punho-de-Maça saltar em sua direção e agarrá-lo. O lavrador teve a impressão, naquele instante, de que os olhos do Rei mudaram de cor, emitindo o brilho metálico dos verdadeiros vivictas, mas devia ser apenas um reflexo do desejo de Punho-de-Maça, que não queria ser governado por um mestiço, ou um anilo. Ele, com destreza, envolveu o pescoço do Rei, e sua faca, tirada da bota com precisão, roçava a garganta de Turaquê.
            – Só podia ser traição a vir de você, escória! – exclamou o guarda-costas, empunhando o machado com as duas mãos e vindo na direção de Punho-de-Maça.
            – Dê mais um passo, mestiço, e perderá seu rei – disse calmamente Punho-de-Maça, agora esperando pelo pedido desesperado de Turaquê.
            Não obstante, o que ele ouviu foi uma gargalhada:
            – Acha mesmo que temo a morte, tuata? – indagou o Rei, contendo o seu riso ao máximo para não se ferir com a incisiva lâmina de obsidiana. – Eu, que coloquei todos os clãs anilos sob o meu comando, e eliminei todos os aspirantes ao trono que ousaram me desafiar, no machado ou por ardis? Eu, que domei um pégaso, mas também me tornei mestre no arco-e-flecha, e não há anilo ou tuata que me supere? Eu, que fui aos confins do mundo, e estava na linha de frente de cada batalha, apesar de ter traçado a estratégia? Eu, que sou o Rei, porém recebo um lavrador, da casta inferior, sem uma revista adequada, rindo da face cadavérica do perigo? Você realmente não conhece seu Rei!
            As palavras, e a forma bravateira e corajosa como vieram, desnortearam Punho-de-Maça, que esperava por outra coisa. Ele, contudo, logo se recuperou, e disse:
            – Pouco me importa se é um nobre covarde com guarda-costas fortes e dedicados ou um louco que perdeu a sanidade em sua vida de excessos; o que lhe dou é um ultimato: leva-lo-ei como refém, e você tratará de libertar todo o meu povo, e só então o soltarei. Não tenho nada a perder, Rei, e não temo um confronto com seu guarda-costas sobre o seu corpo sem vida, ou com os anilos pelo caminho no descer da Montanha. É a sua última chance.
            – Ora, seu...! – bufava o guarda-costas, tremendo de raiva.
            – Acalme-se, você – disse o Rei, mantendo a compostura e a dignidade. – E quanto a você, tuata, mate-me, se for capaz. – A mão de Punho-de-Maça vacilou, ele não acreditando no que ouvia. – É isso mesmo: mate-me, e me poupará de tudo o que me atormenta pelo que precisei fazer em vida. Pois fui predestinado a acabar com as hostilidades entre anilos e vivictas, e nasci miscigenado por isso. Cresci tendo sonhos, recebendo visitas noturnas de minha mãe distante, ela na floresta, famosa vidente, apartada de mim por meu pai, que me criou desde cedo como anilo. E, em vida, realizei tudo o que me foi pedido pelo Destino, pelos titãs dos dois povos que me geraram. Retroceder é impossível, comigo vivo ou comigo morto.
            – É mentira! – esbravejou Punho-de-Maça. – Só você mantém os clãs coesos, pois todos os anilos o temem – e eu nem sei por quê. Sem você, os anilos mergulharão em guerra civil, todos os parentes nessa teia de aranha que você produziu com casamentos e alianças matarão uns aos outros pelo trono. E será a brecha para que meu povo se una e conquiste a liberdade, nossas florestas de volta!
            – Há-há-há-há, as florestas não são mais o seu lar, e jamais o serão novamente – afirmou o Rei com tamanha segurança que Punho-de-Maça vacilou em suas convicções. – Sua inocência me comove, e por isso nem posso odiá-lo... irmão. Ou pensa que não sei desde o princípio quem é você, e com que intuito veio aqui? Eu sou Turaquê, o Grande, e sei de tudo! O que iniciei é um longo processo de conciliação, começando pelo impedimento de escravos vivictas particulares e de maus tratos a eles. Com o passar dos séculos, será um só povo, e já estão todos sob uma só lei. Dei aos anilos o que eles queriam: a guerra, a violência, o trabalho de vigiar as fronteiras e vencer inimigos. E aos vivictas, o que lhes satisfaz: o dia-a-dia tranquilo no campo, seguros sob nossa proteção, e apartados de nossa violência. Você é um idealista, mas deve admitir que não sente falta de floresta alguma.
            O guarda-costas apenas assistia àquilo, impossibilitado de fazer alguma coisa. E Punho-de-Maça, atordoado como houvesse levado uma bofetada, afrouxava cada vez mais a sua mão. Ele não podia acreditar que estava ali, com tudo sob sua vontade, como tanto planejara, e era incapaz de tirar a vida do Rei. Mais do que isso, era incapaz de discordar dele. Era tudo mascarado, disfarçado, mas Turaquê realmente trabalhara para o bem dos dois povos.
            De súbito, a anila que levara a grávida retornou, e estranhou a cena:
            – O que está havendo aqui?! – exclamou, com a mão na boca.
            – Está tudo bem Anaenã – acalmou-a Turaquê. – Nós só estamos trocando conhecimentos, e ele me ensina uma técnica nova, uma forma de surpreender o oponente. Como também lhe ensino outra.
            O Rei se soltou, pois não havia mais força no abraço, e olhou para o lavrador, que abaixou a cabeça.
            – Que notícias traz, Anaenã? – perguntou o Rei.
            – Você é pai de um meninão! – sorriu ela.
            O rosto do Rei se iluminou, a despeito da situação tensa de instantes atrás, e o próprio guarda-costas pareceu relaxar. Sem se dar conta, Punho-de-Maça soltou a faca, que caiu no chão num impacto surdo, chamando a atenção da anila Anaenã e desfazendo a aura mágica do momento, de quando um pai é avisado do nascimento de seu filho. Talvez por isso, Turaquê suspirou, perguntando:
            – E quanto à mãe?
            A anila ficou procurando as palavras, e o Rei mesmo respondeu:
            – Como se eu precisasse de uma confirmação sua. – Ela fechou os olhos, e engoliu seco. E ele, voltando-se para Punho-de-Maça, disse: – Todos temos um tempo, e nele devemos fazer o nosso melhor, trabalhando em prol da posteridade. Afinal, logo seremos sucedidos, violentamente ou não.
            Ouvindo isso, Punho-de-Maça não deixava de olhar para a faca, pensando na verdade contida naquelas palavras. Em sua mente, ele via sua mãe, tão poderosa em seu alcance profético, e também no pai anilo de seu meio-irmão, pela primeira vez com consciência do quanto fora vítima nas mãos da Vidente da Floresta. E quem era culpado, quem era vítima, em tudo aquilo? O Rei, ou sua genitora e criadora, que lhe preparara a estrada? Anilos ou vivictas? Ele já não estava mais certo.

V

            Punho-de-Maça tinha o coração acelerado, de pé diante de seu rei, que estava elevado pelos três degraus, e por isso ultrapassava a sua estatura. Diferente de quando o vira distante, eminente em seu pégaso acompanhado dos melhores entre os guerreiros anilos averiguando o Império – e ele parecia tão maior, uma montanha de músculos –, agora o lavrador se sentia diante de seu soberano, e por isso o momento era tão especial.
            O guarda-costas, mais calmo, já não estava recostado na parede, e se apoiava em seu machado como fosse um cajado. E, num dos apoios para o braço do trono, o cinto de ouro, representação da realeza, repousava, esperando por seu portador, Turaquê, o Grande, que desfizera o nó insolúvel, e enlaçara dois povos tão distintos, mas também irmãos – vivictas e anilos.
            Punho-de-Maça queria ficar quieto, mas não podia:
            – Eu não me canso de me desculpar, meu Rei...
            – Você é um homem de sorte, irmão – interrompeu-o Turaquê, fitando-o com seus olhos opacos, tão irreais. – Foram-lhe concedidas muitas coisas: viu de perto o seu rei, tentou lhe tirar a vida e não será morto por isso, e conheceu um pouco do intrincado plano tecido pelos titãs, e executado por várias pessoas, iniciando com Turáxio, seu filho Turaquê e a Vidente da Floresta, principalmente. E agora, que voltará para casa, será o elo entre uma mãe e um filho que foram separados pelos anos, apartados um do outro pela vida. – Ele estendeu a mão, e o guarda-costas se aproximou, entregando-lhe um manto vermelho. – Dê isso a ela, para se cobrir no inverno. E que sinta o abraço que nunca lhe dei.
            O lavrador apanhou o manto-cobertor, macio e felpudo, vermelho com bordas douradas, e com dois círculos no meio, um branco e um negro, de modo que parte do negro ficava sobre o branco, os dois unidos, sobrepondo-se. O que significava aquilo? Os vivictas tinham cabelos alvos, e os anilos eram dotados de madeixas negro-azuladas. Vermelho, branco e preto também eram as cores de Jatitã. A união ocorreria, porém os vivictas sofreriam com os séculos, sendo oprimidos pelos anilos. Era necessário, e, além disso, era a única maneira. A melhor forma de resolver os conflitos.
            Acima de um presente, era uma mensagem. Uma confirmação de que ele compreendera sua sina, e a levaria até o fim, até as últimas consequências.
            – É um belo presente, e ela adorará – garantiu Punho-de-Maça.
            – Espero que sim – sorriu Turaquê, e, ao que ele piscou, pareceu que por um instante seus olhos de novo chamuscaram metálicos.
            – Peço, mais uma vez, que não me odeie, irmão – pediu Punho-de-Maça, em tom de súplica. Ele não se conformava com o que ocorrera há pouco. – Cantarei seu nome em minha aldeia, e saiba que isso significará muito, pois até hoje sempre fui o seu maior opositor entre os vivictas.
            – Não precisa me dizer – replicou o Rei, com um sorriso acolhedor. – Eu sou Turaquê, e o que pode ficar fora de meu conhecimento?
            Punho-de-Maça abriu um largo sorriso, feliz pelo modo como as coisas foram conduzidas pelos titãs. Enquanto os anilos viam tudo nas mãos do Destino, um deus impessoal e onipotente que guiava inclusive os titãs, os vivictas acreditavam na proteção perene da geração anterior, de antes de Grabatal. Fosse quem fosse, Destino com os titãs, ou eles sozinhos, o que importava é que havia enfim a pessoa ideal no Trono da Montanha.
            Anaenã, a governanta do castelo, apresentou-se, e Punho-de-Maça foi até ela, sendo conduzido para a saída. Não obstante, ele olhava seguidamente para trás, para seu Rei, o filho mais velho de sua mãe, para quem fora trilhado tão importante destino.
            Assim que ele saiu, o brutamontes depositou seu machado na parede, e caminhou até o esbelto vivicto, colocando a mão em seu ombro:
            – Você foi perfeito hoje, ator, mesmo tendo de aceitar a morte de sua esposa, que eu previra – disse ele, com sua voz poderosa. – Perfeito em seu papel, falando como eu falaria, agindo como eu agiria. Até quando enfrentou a morte.
            Turaquê sabia reconhecer um bom trabalho.
            O vivicto esbelto, que se fizera de Rei perante Punho-de-Maça, enfim pôde manter os olhos abertos, aquele par de olhos prateados, e não azuis, como os pintados em suas pálpebras, necessários para que a interpretação de Turaquê fosse convincente. Ele faria qualquer coisa que o Rei lhe pedisse, mas não achava que fora tão difícil assim a ação daquele dia.
            – Eu o fiz porque sei que não permitiria que ele me matasse, senhor – disse o ator, sorrindo. – Salvar-me-ia, caso ele fosse adiante, não?
            Ao invés de responder, o verdadeiro Turaquê, de físico avantajado mesmo para um anilo, e lábios finos e cabelos alvos de vivicta, encaminhou-se para o trono, apanhando e vestindo o cinto de ouro. Ele se sentou relaxado, e apoiou o rosto no punho direito, rindo gostoso. Sua gargalhada se espalhou pelo amplo salão, deixando claro para o vivicto o risco que ele correra.
            O vivicto engoliu seco, e se perguntou até que ponto era bom ser rei. Turaquê se tornara cruel para poder ter as rédeas em um mundo cruel. Seu propósito era bom, porém, na execução, sempre havia de se sujar as mãos – com poeira, sangue e a frieza letal do bronze.

            O caminho era o mesmo velho caminho, com o rio ao longe, sereno em sua viagem interminável, e a relva tomando conta da paisagem, sem todas as colunas naturais das florestas, só o céu amplo e o campo. Embora não fosse o lugar natural de seu povo, era tudo o que Punho-de-Maça conhecia. E ele via, no horizonte como uma silhueta, a Montanha fazendo parte da paisagem, como ela era agora permanente na vida dos vivictas, e talvez um dia fosse para toda Grabatal.
            De súbito, vieram à mente de Punho-de-Maça as palavras da vidente, de sua mãe, a mulher que ele idolatrava. Sua jornada será transformadora, é o que posso assegurar. Você nunca mais será o mesmo. E ele sabia que, como sempre, ela tinha razão. Ele enxergava o Rei como um ser humano, como seu meio-irmão, e, mais do que isso, como um vivicta. O seu intento era claro, e não se tratava de submeter uma casta em proveito de outra. Os séculos fundiriam os dois povos num só, e era a melhor forma de evitar abusos e danos mútuos. Turaquê jamais traíra os vivictas – como também não deixava de ser um anilo.
            “Ele é algo mais... um jatitano!” deu-se conta o lavrador.
            E o caminho agora já não era mais a velha estrada; seus pés sentiam o calor do chão que ele pisava. As nuvens de chuva adquiriam tons alaranjados, e a Montanha era o elo do solo com o céu, dos homens com os titãs. Punho-de-Maça realmente era outra pessoa. Pela primeira vez, vagando por aquela terra, ele ia para casa!


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